Governo de Rondônia
Sábado, 15 de dezembro de 2018

RESSOCIALIZAÇÃO

Ateliê de costura capacita apenados em Porto Velho e dá oportunidade de trabalho

04 de julho de 2018 | Governo do Estado de Rondônia

José Madson concluiu oito cursos oferecidos no presídio e costura diariamente no ateliê montado no Ênio Pinheiro

 

A camisa amarela que dá cor 5ª edição do Prêmio Boas Ideias é obra das mãos de pessoas que sabem bem o que representa a costura em suas vidas: o sonho de ter novamente a liberdade. Isso mesmo, a exemplo desta campanha, apenados que cumprem regime do presídio Ênio Pinheiro costuram uniformes e camisetas num formato de permuta: a cada três dias de trabalho, um dia a menos preso.

Isso é possível por meio do projeto Pintando a Liberdade, em vigor desde 1999 e que colabora com o processo de ressocialização dos presos. Elias Rodrigues, coordenador do projeto, explica que atualmente 22 apenados desenvolvem as atividades, num ateliê montado especificamente para este fim.

O projeto demonstra resultado efetivo: Ademilson Coelho dos Reis, 43 anos, começou cumprir pena aos 21. Veio para Porto Velho transferido da comarca de Colorado do Oeste, quando foi preso, morava em Cabixi. É um dos primeiros trabalhadores do projeto, iniciou em 1999 costurando bolas: “passei oito anos costurando bola. Fui um dos melhores costuradores, fazia com muito capricho”, detalha.

O trabalho, que exigia concentração, ajudou Ademilson, que em seguida passou a trabalhar no ateliê. A vida dele passou a ser remontada, casou em 2003 com uma moça que conheceu durante as visitas. Tiveram uma filha, que hoje tem sete anos. Atualmente ele cumpre medida em regime aberto e montou o próprio ateliê de costura na zona Sul. “Aprendi a costurar e agora tenho meu ateliê e costuro camisetas, uniformes, tudo padronizado”, orgulha-se. A pena de Ademilson deveria encerrar em 2021, mas animado ele já conta os dias para retirar a tornozeleira eletrônica, que utiliza há cinco anos e que define o espaço onde ele deve percorrer. Com a experiência que adquiriu durante os anos, é ele que ajusta as máquinas de costura para que os outros colegas exerçam o ofício, no presídio.

LINHA DE PRODUÇÃO

Ademilson Coelho ajusta as máquinas de costura para que os outros colegas exerçam o ofício

O ateliê de costura funciona semelhante a uma linha de produção: são 14 máquinas em atuação, das nove horas da manhã em diante. “O trabalho aqui não é só o mecânico, conversamos com os reeducandos sobre a importância de se prepararem para o momento que saírem da prisão. Buscamos trabalhar a reinserção e não punição. Não existe mais aquela mentalidade de que o preso deve viver dentro da cela”, define Elias. “Mas eles cumprem horário de trabalho como seria se estivessem lá fora, não deixa de ser um preparo”. Todo o material produzido é enviado para doação. Os apenados muitas vezes nem imaginam para onde são enviadas suas produções, mas afirmam gostar do que fazem.

José Madson da Silva, 36, tinha 22 quando foi preso pela primeira vez. Depois de várias idas e vindas para a prisão se converteu em 2014 e hoje é pastor de uma denominação evangélica no presídio. Junto com a mudança, veio também o trabalho no ateliê, para também passar a receber o benefício da remissão de pena. A vida do lado de fora da prisão também passou a ganhar novo formato a partir daí: casou em 2015, com uma das missionárias que evangelizava no presídio e hoje é visitado por ela semanalmente. Da primeira união, José teve dois filhos, que visitam o pai uma vez por mês. Ele garante que entende sua missão de “pregar a Palavra” dentro do presídio, mas vê com bom olhos a perspectiva de reiniciar sua vida em sociedade: já concluiu oito cursos oferecidos dentro da unidade e costura diariamente, para que a remissão seja breve. “Eu deveria cumprir pena até o dia 04 de janeiro de 2024, sem remissão, mas estou trabalhando há quatro e aguardo resposta dos cálculos para saber o quanto já foi reduzido”, explica. Assim como faz dentro do presídio, José espera continuar dedicado a religião quando sair da prisão.

PINTANDO A LIBERDADE

Inicialmente, o projeto Pintando a Liberdade era destinado para presos condenados a cumprir muitos anos de prisão, chamados por eles de ‘cadeia alta’. Atualmente não é bem assim: o projeto é destinado aos apenados que cumprem pena em regime fechado, mas os que demonstram interesse já podem iniciar as atividades. Eles passam por avaliação, e respondem a uma pesquisa, também é feito levantamento para verificar se não cumprem processo disciplinar administrativo. “É feita avaliação para saber se o preso não vai oferecer risco aos demais, porque eles trabalham com tesoura, faca de serra e outros objetos que pode se tornar arma”, explica Elias Rodrigues.

Luanc Carlos – trabalha a todo vapor para o tempo passar rápido

Aliado a atividade de costura, os apenados também trabalham na serigrafia: revelando tela, e fazendo a aplicação da pintura no tecido, além disso, há os que também trabalham na fábrica de bolas e amarração de redes de futebol. Atividades que no total envolvem 35 presos fora das celas e outros 62 presos costuram bola dentro das celas, no total de 97 apenados envolvidos nas atividades.

Elias Rodrigues demonstra animação com o resultado. Luanc Carlos Marques dos Santos, 28 anos, foi um dos que deslizou para o crime quando estava finalizando a pena, já em regime aberto: “fiquei apavorado porque precisava levar dinheiro para casa e não conseguia oportunidade para trabalhar”, disse. Resultado: cortou a tornozeleira e decidiu roubar, foi preso de novo. Agora trabalha no ateliê e diz que costura com todo gás para o tempo passar rápido: “vou fazer tudo certo de agora em diante, agora tenho uma filha e quero ser um exemplo lá fora”, projeta. Luanc diz que está dedicado aos detalhes do trabalho que está realizando porque pensa em montar um ateliê semelhante, quando a liberdade que tanto sonha e que agora diz estar pronto, finalmente chegar.

O projeto Pintando a Liberdade conta com o apoio do Conselho da Comunidade na Execução Penal e da Vara de Execuções Penais e Medidas Alternativas do Tribunal de Justiça de Rondônia (Vepema).

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Fonte
Texto: Mineia Capistrano
Fotos: Frank Néry
Secom - Governo de Rondônia

Categorias
Governo, Justiça, Rondônia, Segurança


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