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Quarta, 20 de março de 2019

PERSONALIDADE

História de Rondônia: governador Paulo Leal inspirou JK para abrir a rodovia BR-29, depois 364

17 de dezembro de 2018 | Governo do Estado de Rondônia

Caravana Ford foi a prova de fogo para abertura da rodovia BR-364, “o outro braço da cruz” projetado pelo coronel Paulo Leal

 

 

– Sr. Presidente, o sr. já ligou Brasília a Belém e a Porto Alegre, e a está ligando a Fortaleza. Por que não completa o outro braço da cruz, construindo a Rodovia Brasília-Acre?

– Uai, Paulo. E pode?

– Pode Presidente, mas é negócio para homem.

– Então vai sair.

No oitavo governo territorial, o mineiro de Carangola Paulo Nunes Leal convenceu o presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira a levar de fato o Brasil para Oeste, conforme o plano de Getúlio Vargas. Rondônia tinha apenas cem mil habitantes.

A exemplo do marechal Cândido Rondon, o ex-governador não filmou, mas escreveu a própria história na qual pontificam a inteligência, a raça e o destemor de pioneiros que se dispuseram a abrir a rodovia BR-29, mais tarde BR-364, nos anos 1960.

Não por acaso, o governador Daniel Pereira reconheceu a epopeia de Leal, mandando reimprimir em Porto Velho o livro O outro braço da cruz, escrito por ele. Leal governou o território de três de setembro de 1954 a 5 de abril de 1955 e, em segundo mandato, de seis de novembro de 1958 a 18 de março de 1961.

Vitorioso em ideias e projetos, Leal comandou a Caravana Ford, abrindo a ligação rodoviária entre o centro-oeste brasileiro e a Amazônia Ocidental Brasileira. A Caravana saiu de São Paulo em 28 de outubro de 1960, composta por sete caminhões F-600, um trator e um jipe. Atravessou balsas, enfrentou lama e viu ruir pinguelas.

Seus integrantes tiveram que abrir variantes até chegarem a Porto Velho, em 28 de dezembro às 20h, muito aplaudida pelo governador e pelo público.

Na lista dos primeiros mandatários desde o extinto Guaporé, Leal é um dos mais atuantes. E assim foi também, fora dos limites territoriais. Elegeu-se deputado federal pelo PTB, mas não exerceu mandato. Em abril de 1964, elegeu-se deputado federal pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação ao regime militar, assumindo o mandato em fevereiro do ano seguinte.

Foi secretário estadual de transportes no Rio Grande do Sul [no governo Euclides Triches, a partir de 1971]. O governador fora seu companheiro no Exército e na Câmara dos Deputados. Nesse período, visitou os Estados Unidos a convite do Departamento de Estado norte-americano. Em 1974 voltou a se eleger para a Câmara dos Deputados, pela Arena.

Paulo Leal na prancheta dos projetos rodoviários

PORTAS ABERTAS À MIGRAÇÃO

“Os desbravadores que chegaram quando começou ocupação dessa terra ainda deserta da presença do homem não índio, e penetraram nas florestas em busca da castanha e da borracha, fundaram as primeiras povoações, construíram a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, rasgaram as primeiras trilhas terrestres e pelos cursos d’água”, comenta o professor, historiador e atualmente vereador Aleks Palitot.

“Então veio a abertura da BR-029, num ato de ousadia e lúcida visão do presidente Juscelino e que transformou Rondônia a partir daquele momento na maior frente de migração interna no Brasil e na mais próspera fronteira econômica do País”, conta.

Na reunião dos governadores dos ex-territórios federais do Acre, Rondônia e Rio Branco (Roraima) e do Estado do Amazonas com o presidente JK, nos primeiros dias de fevereiro de 1960, Leal demonstrou-lhe a possibilidade de abrir a rodovia.

“Leal chegou ao gabinete e logo compartilhou com os governadores Fontenele de Castro, Hélio Araújo e Gilberto Mestrinho um grosso rolo contendo mapas e recortes de jornais, e todos eles aprovaram a ideia”, conta Palitot.

Percebendo o entusiasmo dos demais governadores, JK explicou-lhes que uma de suas metas era construir estradas para integrar o Brasil. Empolgado, determinou ao extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), hoje DNIT, a imediata execução dos trabalhos. “Queria inaugurar a estrada, antes do final do ano, mas ela não era pavimentada, e em se tratando da Amazônia, no período chuvoso se transformava em pesadelos”, lembra o historiador.

Em determinada época do ano, a viagem entre Vilhena e Porto Velho demorava até dez dias, em consequência dos atoleiros e pontes de madeira avariadas.

CARAVANA FORD

Sob a ótica desenvolvimentista, JK foi precursor do lema do ex-presidente Washington Luiz Pereira de Souza (1926-1930), segundo o qual “governar é abrir estradas”.

Exerceu o segundo mandato já no Território Federal de Rondônia, desta vez, em período mais longo, de seis de novembro de 1958 a 18 de março de 1961 – dois anos e quatro meses. Para o primeiro mandato foi escolhido pelo presidente Café Filho (PSP)*. Juscelino Kubitschek de Oliveira (PSD)** escolheu-o para o segundo mandato. Leal morreu em 2003.

“No final de 1960, uma equipe formada com motoristas e mecânicos do governo, além de particulares, levou 59 dias de São Paulo a Porto Velho, conduzindo uma caravana de carros da Ford”. Alex Palitot, historiador e vereador.

Os integrantes dessa caravana eram chefiados pelo telegrafista Antônio Brasileiro, mais tarde substituído pelo mecânico Eduardo Lima e Silva. Para o historiador, os desafios enfrentados justificaram a aprovação do projeto da estrada de 1.500 quilômetros, entre Cuiabá e Porto Velho, e de outros 1.149 até Cruzeiro do Sul (Acre), na fronteira com o Peru. Areão, lama, água em tambores e conservas como alimento. “Os picadões, como eram conhecidos, foram abertos pela Construtora Camargo Corrêa & Cia. Ltda. Quando chovia, os motoristas bebiam água coletada nos caminhões, e ao mesmo tempo, se banhavam na chuva para mitigar o calor sufocante”, conta Palitot.

Dos mais simples aos ilustres participantes da caravana, todos conheceram indígenas, tapiris (palhoças), répteis e insetos em grande quantidade. Entre outros, fez parte da caravana o então jovem jornalista [A Gazeta, de São Paulo] e diretor de cinema Manuel Rodrigues Ferreira, autor de diversas reportagens, incluindo as da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que resultaram em seu livro A Ferrovia do Diabo.

O jornalista Vladimir Herzog [torturado e morto em 1975 no Destacamento de Operações de Informação e Centro de Operações de Defesa Interna do Exército em São Paulo] cobriu a aventura por um trecho, a serviço do jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo Palitot, o “carismático motorista e jogador de futebol” Gervásio Feitosa foi o responsável pelas travessias dos caminhões em pontos de pontes e pinguelas que exigiam muita perícia. Em 2015 ele recebeu a Comenda Marechal Rondon, maior honraria do Estado de Rondônia, por fazer parte do seleto grupo daqueles que também podem ser considerados destemidos pioneiros.

Anúncio do governo na época

“Missão desse tipo exigia a escolha criteriosa e apurada de seus componentes, pois dificuldades para cumpri-la não iriam faltar. Responsável pela expedição inicialmente, o chefe do gabinete do governador, Antônio Brasileiro teve como companheiros Eduardo Lima e Silva, seu Dudu, também futebolista em Porto Velho.

Outros mais, conforme seu relato: os jornalistas Hugo Penteado (Folha de S.Paulo) e Álvaro Costa; o coronel da Aeronáutica e naturalista Moacir Alvarenga; o médico Carlos Fleury;  o mecânico da Ford Sérgio Zalawska; o cinegrafista Nestor Marques; mais José Araújo, Antônio Gervásio, Cordiel Firmino, Milton Luiz dos Santos, Benedito Cardoso, o empresário Roberto Casenave [representante da Ford em Porto Velho], Ireno Ribeiro, Raimundo Feitosa, Auzier Santos, o cozinheiro Severino, o ex-administrador da Vila de Jacy-Paraná e político José Maria Saleh e Antônio Costa Pereira.

HOMEM AMAZÔNIDA E PARLAMENTAR NO SUL

1916 – Nasceu em 1º de julho de 1916, filho de Nascimento Nunes Leal e de Angelina de Oliveira Leal.

1937 – Sentou praça em 1937, na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Dali saiu aspirante-a-oficial da arma de engenharia na turma de 1940.  Segundo-tenente em agosto de 1941 e primeiro-tenente em outubro do ano seguinte. Serviu no 2º. Batalhão Rodoviário, em Lajes (SC), na Comissão de Estradas de Rodagem nº. 2, em Barretos e São José do Rio Preto [ambas no Estado de São Paulo], e, no Rio de Janeiro, na Diretoria de Obras e Fortificações e na Comissão de Obras nº 1.

1939-1945 – Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na campanha da Itália, servindo como comandante de pelotão no 9º. Batalhão de Engenharia. Participou de diversos combates, entre os quais, as ocupações de Monte Castelo e Camaiore. Recebeu 13 citações individuais e foi condecorado com a Cruz de Combate de 1ª Classe, a mais alta distinção de guerra brasileira, e a Bronze Star Medal, entregue pelo V Exército norte-americano, unidade militar aliada à qual a FEB estava subordinada. De volta ao País, foi promovido a capitão em setembro de 1945.

1950 – Ingressou na Escola Técnica do Exército, hoje Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, pela qual se formou engenheiro civil e militar em 1950. Assessor de trans­portes da Comissão do Vale do São Francisco, depois Superintendência do Vale do São Fran­cisco (Suvale), em janeiro de 1952 foi promovido a major.

Paulo Nunes Leal, oitavo governador

1954 – Paulo Leal foi nomeado governador do Território Federal de Guaporé, permanecendo até 1955. Promovido a tenente-coronel em dezembro desse ano, chefiou a Comissão Especial de Obras nº. 9, sediada em Manaus, entre 1956 e 1957. Era o superintendente dos trabalhos de construção do Exército no oeste da Amazônia, especialmente nas regiões fronteiriças. Durante este período, manteve ligações políticas com Rondônia, mantendo coluna e escrevendo artigos para jornais locais. Filiou-se à Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e esteve associado até maio de 2000.

1958 – Elegeu-se suplente de deputado federal por Rondônia na legenda do PTB. Não exerceu o mandato. Ainda naquele ano foi novamente nomeado governador de Rondônia, cargo que ocuparia dessa vez até 1962.

1964 – Passou para a reserva remunerada com o posto de coronel, sendo então nomeado superintendente da Estrada de Ferro Leopoldina, cargo que ocupou até 1966.

1966 – Elegeu-se deputado federal por Rondônia pela Arena, partido de sustentação ao regime militar instalado no País em abril de 1964, assumindo o mandato em fevereiro do ano seguinte.

1968 – A convite do governo português visitou as então colônias deste País na África. Deixou a Câmara dos Deputados ao final de seu mandato, em janeiro de 1971. Foi secretário de Transportes do Rio Grande do Sul.

1974 – Voltou a eleger-se deputado federal pela Arena, dessa vez pelo Rio Grande do Sul, para onde havia transferido seu domicílio eleitoral.  Reassumiu uma cadeira na Câmara em 1º de fevereiro de 1975, mas licenciou-se do mandato no dia seguinte para ser empossado, mais uma vez, na secretaria de transportes daquele estado. Permaneceu no cargo apenas até março seguinte, quando findou o governo de Triches.  De volta à Câmara, integrou as comissões de Transportes e de Segurança Nacional, presidiu a Comissão de Valorização da Amazônia e foi suplente das comissões de Relações Exteriores e de Economia, Indústria e Comércio.  Deixou a Câmara ao final de seu mandato, em janeiro de 1979.

Ademar Pereira de Barros, ex-governador de São Paulo, fundador do PSP

* Partido Social Progressista (PSP) foi fundado em São Paulo por Ademar de Barros, em junho de 1946. Criado a partir do Partido Republicano Progressista, presidido pelo mesmo Ademar, foi o resultado de uma fusão que além do PRP juntou o Partido Agrário Nacional (PAN) e o Partido Popular Sindicalista (PPS).

** Partido Social Democrático (PSD) foi um partido político brasileiro, fundado em 17 de julho de 1945 e extinto pela ditadura militar, pelo Ato Institucional Número Dois (AI-2), em 27 de outubro de 1965. Formado com o apoio do presidente Getúlio Vargas, o PSD teve caráter centrista, reunindo antigos interventores do governo federal nos estados, entre os quais, Benedito Valadares em Minas Gerais, Fernando de Sousa Costa de São Paulo, Almirante Ernâni do Amaral Peixoto do Rio de Janeiro, seu irmão Augusto, no então Distrito Federal, depois Guanabara e Agamenon Magalhães de Pernambuco. Entre 1945 e 1964, junto com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), formava o bloco pró-getulista da política brasileira, em oposição à União Democrática Nacional (UDN), anti-getulista. Foi majoritário na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Elegeu dois presidentes: Eurico Gaspar Dutra (1945) e Juscelino Kubitschek de Oliveira (1955). Na breve experiência parlamentarista, teve dois presidentes do conselho de ministros de sua legenda, Tancredo Neves e Brochado da Rocha. [Com dados da Wikipedia]

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Fonte
Texto: Montezuma Cruz
Fotos: Arquivo Sejucel, Ministério dos Transportes. Reprodução: Esio Mendes
Secom - Governo de Rondônia

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